Teatro Rival, ícone da cultura carioca, luta para manter-se aberto

Com informações de Michel Alecrim para o UOL, no Rio e apuração complementar de Valor Atemporal

O Teatro Rival, na Cinelândia, centro do Rio de Janeiro, tornou-se uma das empresas do setor de entretenimento atingidas pela nova política de não patrocínio à Cultura, do Governo federal. Uma das casas de espetáculo mais tradicionais do Rio de Janeiro, sendo uma das mais antigas do Brasil – com 85 anos, palco de grandes nomes da música e do teatro nacional e espaço para a diversidade, recebeu o aviso da Petrobras – estatal patrocinadora do local – de que teria os repasses previstos em contrato interrompidos imediatamente. A notícia foi passada pessoalmente às atrizes e empresárias Ângela e Leandra Leal, na sede da Petrobras.

Angela e Leandra Leal com a foto de Américo Leal.

“O Rival é uma empresa familiar em todos os sentidos. Não só por pertencer a uma família, mas porque conheço os funcionários há décadas e vi seus filhos crescerem e entrarem na faculdade. Seria muito triste tomar uma decisão dessas de ter que cortar”, contou Ângela, que herdou o teatro do pai, o empresário Américo Leal.

Ângela Leal garante que só tem como manter o teatro funcionando se conseguir um outro apoiador, provavelmente privado. Para ela, dificilmente o governo do Estado do Rio ou a prefeitura dariam apoio à linha do teatro. Tanto mãe quanto filha têm um posicionamento político público de esquerda.

“Compreendo que o governo está mudando a linha da empresa e que o Rival não cabe mais na nova diretriz. Mas não podem cortar assim de uma hora para outra. Não podem matar a cultura. Apoiamos a memória, a história e a diversidade. O Rival é a cara do Rio. Mas os governos têm outra linguagem”, disse a atriz e empresária Angela Leal, que conseguiu seu primeiro patrocínio junto à Petrobras no governo Fernando Henrique, há 18 anos.

Teatro Rival testemunhou o desenvolvimento do Rio de Janeiro

Cinelândia, 1940. Teatro Rival já era presente na cultura do Rio de Janeiro.

Fundado em 22 de março de 1934, o “ariano” Rival se tornou uma casa audaciosa, carismática, abrigo de todas as artes e tipos de pessoa. Suas portas se abriram com a comédia Amor, de Oduvaldo Viana, estrelada por Dulcina de Moraes e Odilon de Azevedo.

Na época, chamou a atenção pelo tamanho do seu palco, dividido em três partes, e pelos 24 ventiladores instalados para circular ar fresco, já que o teatro ocupava um subterrâneo. A decoração em azul, rosa e prata foi assinada pelo artista plástico Monteiro Filho.

Grandes nomes da música e do teatro se apresentaram no Teatro Rival

Pertencia inicialmente a Vivaldo Leite Barbosa, proprietário do edifício Rex. Depois de sucessivas vendas, chegou às mãos de Américo Leal em 1970. Empresário do teatro de revista, Américo fez do Teatro Rival um foco de resistência desse gênero. Ângela Leal, filha de Américo, assumiu a direção da casa na década de 1990, com a ajuda da filha, a também atriz Leandra Leal. Desde 2001, a casa era patrocinada pela Petrobras.

Em 2005, foi o enredo da Alegria da Zona Sul, escola de samba que naquele ano disputava o Grupo de Acesso A do Carnaval do Rio de Janeiro. O título do enredo era “Teatro Rival, 70 anos de resistência cultural” e a agremiação ficou em 5°lugar na classificação final.

No ano passado a casa lançou o livro Teatro Rival – Resistência e sensibilidade, do escritor Fred Góes, que conta a história da casa de shows.

Repercussão nas redes sociais

Quando soube da notícia do corte, o musicólogo Ricardo Cravo Albin ficou estarrecido. Ele já produziu diversos espetáculos no lugar e reconhece não só a tradição da casa, como seu esforço em manter viva a cultura brasileira.

“O Rival se especializou em celebrar a memória e relembrar datas. A cultura sai perdendo, mas a Petrobras também por deixar de se associar a essa linha”, afirmou Albin.

Tradicional no Rio, Teatro Rival é amado pelo público.

Segundo Angela Leal, informou a reportagem do BOL/UOL, o contrato anual no valor de R$ 1 milhão terminaria em junho do ano que vem. Há um acordo de exclusividade e o nome da estatal é exposto junto ao da casa. A verba representa 35% das despesas fixas do lugar, que agora pode ter até que demitir funcionários.

Resposta da Petrobras

A Petrobras informou através de nota enviada para o portal Bol/UOL que “está revisando sua política de patrocínios, em alinhamento ao posicionamento de marca da empresa, com foco em ciência e tecnologia e educação, principalmente infantil”. De acordo com o comunicado, “o orçamento para patrocínios, assim como diversas outras áreas, sofreu redução à luz do Plano de Resiliência divulgado no dia 8/3/19 e, por esta razão, alguns contratos estão sendo reavaliados e poderão ser descontinuados”. A assessoria de imprensa não confirmou a ruptura imediata com o Rival nem informou como ficariam os repasses daqui para frente.

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