Mecanismos de defesa da mente, como adquirir mais saúde emocional

O mundo dos afetos anda conturbado. A cada dia as pessoas (de crianças a idosos) sentem mais e mais angústias, o que tem causado transtornos e conflitos pessoais, profissionais e nos relacionamentos. Namoros e casamentos parecem cada vez mais volúveis; amizades são postas em xeque por conta de frivolidades; a união familiar tem sido, em muitos casos, apenas ligada pelo sobrenome.

As pessoas – embora ocupem o mesmo espaço ou compartilhem das mesmas redes sociais – parecem ter dificuldades em estabelecer interações ou conexões reais, acarretando numa crescente solidão, isolamento e sentimentos de “não pertencimento”, fatores que pode estar diretamente relacionados ao surgimento de transtornos emocionais e físicos.

Katia Maria Moura Mendes - PsicologaDe acordo com a psicóloga, psicanalista, especialista em Psicologia Clínica, psicanálise infantil e institucional, Katia Maria Moura Mendes, vivemos em um momento de extrema “individualização”, fato que tem tornado os relacionamentos pessoais e familiares mais frágeis, inconsistentes e até mesmo descartáveis, pautados pela relação de “custo e benefício”, retrato de uma cultura centrada no consumismo, aonde o quanto vai nos custar e o quanto de benefício vai trazer, passou a ser a fórmula substituta da empatia.

“Diante deste cenário surge o conflito entre a necessidade vital de “conectar-se” e ao mesmo tempo de “manter a distância”, consequência de medo e insegurança. Como consequência isso pode desencadear ansiedades e decorrentes mecanismos de defesa, nome dado por Freud aos métodos adotados pela parte da personalidade encarregada de gerenciar os conflitos (Ego), para proteger a pessoa da dor e ansiedade excessiva, de origem interna ou externa, o que não é uma missão fácil de cumprir. A utilização destes mecanismos faz parte da dinâmica que envolve a vida diária de qualquer pessoa, só representando “perigo” quando usados pelo Ego de modo excessivo ou inflexível”, ressalta a psicóloga e psicanalista. 

Em entrevista ao Valor Atemporal, Katia Maria Moura Mendes, fala sobre mecanismos de defesa psíquicos, dá dicas sobre como adquirir mais saúde mental e emocional em tempos de pensamentos acelerados, conexões que nem sempre encurtam as distâncias e conflitos entre inserir-se e afastar-se. 

Valor Atemporal – Como agir com aquela pessoa acomodada que racionalmente acha que “fazer tal coisa de vez em quando não tem problema”? Por exemplo: Todos os dias o colega de trabalho te pede remédio para dor de cabeça e nunca compra para ele alegando ser muito caro. 

Katia Maria Moura Mendes – Quando uma pessoa utiliza a racionalização, elabora motivos logicamente consistentes e aceitáveis para pensamentos e ações inaceitáveis, redefinindo a realidade, fato que pode constituir muitas vezes dilemas e conflitos relacionais. Entretanto, diante de um mecanismo de racionalização ou mera acomodação, é necessário assumir um posicionamento pessoal de acordo com a percepção de realidade de cada um, estabelecendo limites e respeitando o que real para o outro. 

isolamento - mecanismo de defesa a menteO que acontece quando usamos o isolamento para nos afastar das perturbações do dia a dia? Como resgatar a coragem para enfrentar conflitos?

O isolamento é um modo de defesa que consiste em separar um pensamento ou ação de seu contexto geral como forma de evitar situações insuportáveis, isolando a reação emocional do acontecimento em questão. Sendo assim, ”não sentir” pode significar uma forma de conseguir “aguentar”. Porém, seu uso continuado e excessivo pode incapacitar a pessoa de conseguir enfrentar seus problemas, dificultando um ajustamento efetivo à vida, sendo necessárias medidas de fortalecimento do ego para enfrentar os conflitos.

 Uma pessoa que vive em constante negação torna-se incapaz de raciocinar de forma lógica sobre fatos?

A maioria de nós utiliza a defesa da negação, pelo menos ocasionalmente, criando uma distorção da realidade para evitar a ansiedade, impossibilitando a capacidade de uma avaliação real do fato ou circunstância, o que pode representar um risco em maior ou menor grau, por exemplo, quando em um relacionamento não “enxergamos” um sentimento não correspondido. 

grama verdePor que projetamos tanto? Fracasso? Culpa? Por achar que a grama do outro é mais verde do que a nossa?

Todas as pessoas empregam a projeção durante uma boa parte do tempo e não se dão conta disso, pois os sentimentos, qualidades ou intenções que não conseguem suportar ter ou sentir, atribuem ao outro. Assim, a ansiedade diante da existência de sentimentos como fracasso, frustrações, raiva e inveja, fica reduzida quando estes são “projetados” para fora, sob o disfarce de defesa contra “aquilo ou aquelas coisas” que pertencem a outros.  Exemplo: em vez de ter que lidar com o fato de sentir inveja de alguém, considera-se uma pessoa invejada por uma determinada pessoa ou por todos. A projeção levada aos extremos pode constituir um problema grave. 

Arame-Farpado - lembranças dolorosas - mecanismo da menteHá pessoas que reprimem lembranças traumáticas a ponto de parecer que elas nunca aconteceram, algo como “sabemos que aconteceu, mas nunca falamos sobre isso”. Isso é bom? A repressão caminha junto com a negação?

Inicialmente é preciso esclarecer a diferença entre os conceitos de repressão e recalque, pois o primeiro refere-se a uma operação psíquica que tende a afastar conscientemente uma ideia ou afeto cujo conteúdo é desagradável ou doloroso. Quanto ao recalque, trata-se de um mecanismo de defesa básico, indispensável e inconsciente que mantém fora da consciência, impulsos, lembranças e sentimentos que não poderiam ser satisfeitos ou lembrados sem insuportável culpa ou dor. Sendo assim, “não lembrar” um acontecimento traumático é uma forma de proteção frente a dor incomensurável que tal lembrança traria, sendo necessário estar em um processo psicanalítico ou psicoterápico para gradativamente ter acesso a esses conteúdos inconscientes.

No método de negação, que foi citado anteriormente, ocorre a fantasia de inversão dos fatos reais nos seus opostos. Na repressão ou recalque há o afastamento consciente ou inconsciente dos fatos, ou seja, referem-se a manobras defensivas diferentes. A escolha do mecanismo de defesa que vai atuar em um dado momento depende da natureza da situação específica e das características de cada pessoa.

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