História do Morro do Castelo ganhará performance no Rio de Janeiro

A performance será uma ação aberta ao público e gratuita que acontecerá uma única vez


Artista residente do Artsonica, Ismael Monticelli, revive centro histórico e cultura da cidade no projeto “MEMORIAL PARA UM APAGAMENTO”
(Foto: Monica Ramalho)

Uma performance ao vivo apresentará ao público fatos históricos sobre o Morro do Castelo, localizado na região central do Rio de Janeiro. Idealizada pelo artista multimídia e doutorando em Arte e Cultura Contemporânea pela UERJ – Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Ismael Monticelli o projeto artístico “MEMORIAL PARA UM APAGAMENTO” nasce a partir de pesquisas, imagens, documentos, textos, relatos pessoais e mapas do local

Nascido em Porto Alegre (Rio Grande do Sul), Ismael Monticelli se apaixonou pela história do Morro do Castelo e, por isso, seu projeto performático tornou-se um meio importante parafazer com que a população conheça com maior profundidade a história dessa região central do Rio de Janeiro.


(Foto: Monica Ramalho)

“A proposta é apresentar aquilo que foi apagado da paisagem. O trabalho consiste em uma visita guiada a alguns pontos do Centro Histórico do Rio de Janeiro sob um viés diferente: em colaboração com as atrizes/performers Gisele Fróes e Denise Stutz, conduzirei uma visita a região onde se localizava o Morro do Castelo, marco inicial da cidade que foi definitivamente arrasado da paisagem na década de 1920”, explica o residente.

A performance será uma ação aberta ao público, gratuita e acontecerá uma única vez. A previsão é que seja filmada entre o final de maio e começo de junho, com data a ser divulgada pela Zucca Produções, empresa de produção cultural diretora do Artsonica Residência Artística. Com ares de “visita guiada”,o registro da performance ficará exposto a partir do segundo semestre deste ano no Centro Cultural Oi Futuro, no Flamengo, junto com outras dez criações que integram o Artsonica Residência Artística.

História que pulsa

A história do Morro do Castelo está pulverizada em muitos acervos do Rio e Ismael Monticelli tem mergulhado em uma intensa pesquisa bibliográfica (livros, dissertações e teses), acervos iconográficos, documentais e sonoros como os pertencentes à Fundação Biblioteca Nacional, ao Instituto Moreira Salles, ao Museu da Imagem e do Som do Rio e ao Arquivo Nacional. Ele também tem percorrido o próprio Castelo e recorrido às coleções do Museu Histórico Nacional, Museu da Cidade do Rio de Janeiro.


O artista visual está fazendo, inclusive, identificações sobre onde se localizava o Morro do Castelo dentro da planta atual da cidade do Rio (Foto: Monica Ramalho)

O artista visual está fazendo, inclusive, identificações sobre onde se localizava o Morro do Castelo dentro da planta atual da cidade do Rio. O local possui alguns marcos que pelo menos já existiam no momento em que o Morro foi arrasado, como a igreja de Santa Luzia e a Santa Casa de Misericórdia. Uma das entradas para o Morro do Castelo ainda se encontra na paisagem: a Ladeira da Misericórdia. Outro ponto fundamental da pesquisa é a investigação da produção ficcional da época em que o Morro foi arrasado já que muitos escritores fizeram uso da história do Morro em suas produções literárias. Exemplo é a obra “Isaú e Jacó”, romance de Machado de Assis, que gera um discurso indireto a respeito das polêmicas envoltas ao redor do Morro.


O primeiro pedido de concessão para se demolir o Morro do Castelo surgiu em 1838.
(Foto: Monica Ramalho)

 “No final século XVII, o Morro do Castelo foi perdendo sua posição central com o sucessivo esvaziamento das funções administrativas e sociais, que passaram a ser praticadas, em grande parte, nos arredores do Largo do Carmo (atual Praça Quinze). Logo após a expulsão dos jesuítas do Brasil, começaram a surgir os primeiros ataques contra o Morro. Os médicos acreditavam que os morros do Rio eram os principais responsáveis pelas moléstias e epidemias, sendo o do Castelo o “mais nocivo” por bloquear a passagem de ar vinda do mar, impedindo o arejamento da cidade. Já os engenheiros começaram a acusar o Morro como o principal culpado pela dificuldade de estabelecer um tecido urbano fluido e pela dificuldade de se expandir a cidade. O primeiro pedido de concessão para se demolir o Morro do Castelo surgiu em 1838. No entanto, o discurso oficial a respeito dos motivos do arrasamento sempre esteve acompanhado de um motivo extraoficial, que talvez tenha sido o principal motivo: a lenda de que nos subterrâneos do Morro do Castelo estavam escondidas as riquezas acumuladas pelos Jesuítas. A partir de então, começaram a borbulhar pedidos de concessão para o arrasamento do Morro e, assim, começou a se desenhar o assassinato de uma parte da história do Rio. ”, destaca Ismael.

Reforma urbanística

Vista parcial do Morro do Castelo durante o seu desmonte (Foto: Reprodução/Google)

Ismael tem encontrado muitas controvérsias ao redor da história do arrasamento do Morro do Castelo, principalmente nas histórias contadas pelas autoridades da época que pareciam completamente diferentes das histórias contadas pelos próprios moradores do Morro. Arrasado em 1922, durante a gestão de Carlos Sampaio, suas terras seriam utilizadas para aterrar parte do centro do Rio e parte da Praia do Flamengo. Na ocasião, o Morro do Castelo era habitado por aproximadamente 4.200 pessoas prioritariamente imigrantes e descendentes de italianos (domésticas, lavadeiras, carregadores, alfaiates, sapateiros e feirantes).

Inspirada na reforma urbanística de Paris e legitimada por um suposto discurso sanitário, Pereira Passos levou adiante seu ambicioso projeto de “modernizar” a cidade do Rio de Janeiro. A construção de praças, a ampliação de ruas – buscando adaptá-las ao fluxo de automóveis – e a criação de estruturas de saneamento básico foram realizadas à custa da remoção e a expulsão das camadas mais humildes da população do centro.

Urbanismo e arquitetura do Morro do Castelo em desenho de Algemeen Rijksarchief

“Mas tudo isso é controverso, pois os governantes estavam obstinados a levar o projeto de arrasamento adiante e, junto com a imprensa da época, conseguiram construir uma imagem negativa do Morro de dos seus habitantes. Os Castelenses eram vendidos como pobres e degenerados e o Morro era visto como fonte de epidemias. Essa narrativa contradiz o depoimento do casal de irmãos Florinda e Francisco Alói, habitantes do Morro e que tiveram seus testemunhos coletados pelo projeto Arquivo Vivo do Museu da Imagem e do Som, na década de 1980. Segundo a história contada por eles, o Castelo parecia possuir mais um clima rural e bucólico. Todos ali se conheciam, “eram como uma só família”. Os habitantes pareciam reconstituir ali hábitos mais atrelados a vida no campo do que a vida na cidade. Talvez um dos fatores do arrasamento do Morro seja essa visualidade rural que se opunha a reforma urbanística que queria transformar o Rio em uma “Paris dos Trópicos”, analisa Ismael Monticelli sobre seu projeto para o Artsonica Residência Artística.

Confira o Mapa do Rio antes e depois da destruição do Morro do Castelo, objeto de pesquisa do artista residente Ismael Monticelli.

O projeto “MEMORIAL PARA UM APAGAMENTO” do artista visual e pesquisador, foi um dos dez selecionados num universo de 378 empresas brasileiras de produção cultural que se inscreveram na seleção do Artsonica – Residência Artística, realizada pela Zucca Produções em parceria com Oi Futuro e Ministério da Cultura, que contemplou os escolhidos com uma bolsa de criação para tirar o projeto do papel e transportá-lo para realidade virtual.

“Este projeto se propõe a apoiar pesquisas e trabalhos de investigações artísticas que estão começando. Existe pouco fomento à pesquisa, e muito apoio ao produto final – teatro, livros, cinema. Nosso objetivo é dar apoio a quem está desenvolvendo pesquisas em andamento e levar ao público conhecimento de relevância sobre assuntos que podem ter o audiovisual com aliado”, destacou Julio Zucca, diretor da Zucca Produções, empresa responsável pela direção geral do Artsonica.



Sobre Ismael Monticelli

www.ismaelmonticelli.com

Artista e pesquisador. Recentemente foi contemplado com uma das três bolsas de Residência Artística para Artistas Sul Americanos (Programa COINCIDENCIA – Intercâmbios Culturais Suíça/América do Sul, Fundação ProHelvetia) em La Becque Residence D’artistes – La Tour-de-Peilz/Suiça. Em 2019, realizou uma residência no Institute of Contemporary Arts de Singapura, desenvolvendo um trabalho a partir de parte da coleção da instituição. Foi indicado ao Prêmio PIPA 2018 (Instituto PIPA e Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro). Ganhou o Prêmio Foco Bradesco ArtRio 2017, recebendo uma bolsa residência e um prêmio de aquisição, e seu trabalho foi incorporado ao acervo do Museu de Arte do Rio – MAR. Ganhou o Prêmio Funarte de Arte Contemporânea 2015, foi artista destaque na Bolsa Iberê Camargo (Fundação Iberê Camargo, Porto Alegre, 2011) e ganhou o Festival de Fotografia HTTPpix (Instituto Sérgio Motta, São Paulo, 2010).

Realizou diversas exposições individuais, destacando-se: Exercício de Futurologia, (Temporada de Projeto do Paço das Artes, Museu da Imagem e do Som, São Paulo/SP, 2018); Monumento, Em parceria de Adriano e Fernando Guimarães (Funarte – Brasília/DF, 2017); Le Petit Musée – Sala 1, 2 e 3, curadoria de Raphael Fonseca (Portas Vilaseca Galeria, Rio de Janeiro/RJ, 2016); Todas as coisas, surgidas do opaco, curadoria de Luísa Duarte (Santander Cultural, Porto Alegre/RS, 2014).

Participou de diversas exposições coletivas, destacando-se: Lost and found: imagining new worlds, curadoria de Raphael Fonseca (Institute of Contemporary Arts, Singapura, 2019); RSXXI – Rio Grande do Sul Experimental, curadoria de Paulo Herkenhoff (Santander Cultural, Porto Alegre/RS, 2018); Prêmio Foco Bradesco ArtRio, curadoria de Bernardo Mosqueira (Marina da Glória/ Rio de Janeiro/RJ, 2017); 10ª Bienal do Mercosul (Usina do Gasômetro, Porto Alegre/RS, 2015); Situações Brasília, curadoria de Cristiana Tejo, Evandro Salles e Ricardo Sardenberg (Museu Nacional da República, Brasília/DF, 2014).

Atualmente cursa doutorado em Arte e Cultura Contemporânea (Universidade do Estado do Rio de Janeiro).

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