Filme e Crítica Filosófica: Lucy

Antes de mais nada, é importante frisar que um filme como Lucy é para ser analisado sob a ótica filosófica e não cientifica ou sob as regras técnicas cinematográficas.  Luc Besson não é nenhum gênio do cinema, porém, foi extremamente feliz na forte semente que jogou nos espectadores do filme.  Diria sem hesitar que esse filme é tudo que Trancendence não foi e tão ousado como Matrix conseguiu ser.  Acho que está claro, pra quem já viu os dois filmes citados que estou falando da capacidade de expor nas telas a incrível façanha do existencialismo humano. O objetivo de minhas participações no Valor Atemporal é tentar trazer alguma reflexão filosófica/psicanalítica que os filmes podem nos dar, mostrando sua capacidade de descortinar um pouco dos paradoxos do pensar, do existir e do transcender.  E é isso que esse filme consegue fazer de forma fenomênica.

Filme de ação americano de 2014 dirigido, escrito e produzido por Luc Besson. É estrelado por Scarlett Johansson como o protagonista e Morgan Freeman
Filme de ação americano de 2014 dirigido, escrito e produzido por Luc Besson. É estrelado por Scarlett Johansson como o protagonista e Morgan Freeman

Muito se fala da capacidade e da forma de uso do cérebro.  Não é novidade que tal assunto seja objeto de estudo da neurociência há bastante tempo e não entrarei em méritos técnicos da estrutura sináptica ou similares, mas, sim, da maneira como o diretor vislumbra um ser humano transcendido, expansivo e conectado com o eu e o todo.  Colocando as questões da existência conceituados por nós em cheque e atribuindo intrigantemente o todo ao TEMPO, confesso que lembrei muito da escola mobilista e de seu grande nome, o filósofo Heráclito, onde toda essa trama define bem o porque dele ser conhecido como o obscuro. Heráclito afirma em sua visão da existência, da archê (elemento primordial – causa primeira) ao mover eterno que caracteriza a inexistência que há na existência de tudo, e nada vem mais a calhar a esse filme do que isso.

Lucy, quando consegue alcançar 100% de uso do seu cérebro, automaticamente se conecta ao todo, a archê, e compreende que tudo faz parte de um plano maior do qual nunca conseguiríamos observar e entender.  O tempo transforma tudo e faz inexistir a existência de quem não consegue o principal da vida: o conhecimento do EU como o degrau primordial para o descortinamento do todo.

MARCIO GARRIT

ESTUDANTE DE FILOSOFIA E PSICANÁLISE

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