Expedição ao PANTANAL do Mato Grosso coloca alunos em simulações de situações reais

PANTANAL do Mato Grosso, local de fauna e flora exuberantes, uma das regiões mais belas do Brasil para turismo ecológico. Mas não é só turismo que dá para fazer por lá. O Pantanal também é lugar curso e aprendizado no formato de expedição, onde são simuladas situações reais que podem acontecer na selva, com direito a acampamento na mata, fotografar e filmar camuflado e ainda voltar pra casa sabendo lidar melhor com a ansiedades, medos relacionados a fauna.

Camuflagem (Foto: Edlayne de Paula)

O Curso de Documentação e Comportamento em Selva, desenvolvido pela Rotas Verdes Brasil, tem como instrutor dos treinamentos de selva o documentarista de natureza, Fernando Lara, responsável por levar entusiastas, pesquisadores e profissionais de diversas áreas, para sete dias de imersão em um dos maiores observatórios de vida selvagem do mundo. E não pense que o aluno fica lendo apostilas e ouvindo palestras. A aula é a selva!

Podem participar pessoas com idade a partir de 18 anos ou mais, boa saúde física e psicológica e muita disposição. Muita mesmo! Isso porque durante o curso, os alunos dormirão acampados, farão a própria comida em campo, tomarão banho de rio, além de terem diversas atividades relacionadas à rotina de um acampamento de um verdadeiro expedicionário. Isso envolve o comportamento e liderança de atividades em equipe, a preparação correta de alimentos, escolha de pontos seguros para acampamento e observação de fauna flora selvagem incluindo camuflagem (noturna), prevenção de acidentes e imprevistos; entre outros.

E aí, você topa?

O treino exige bastante da parte física e principalmente psicológica, com poucas horas de sono e atividades durante todo o dia. O projeto é intenso, dinâmico e desafiador. São 150 horas de aprendizado até dormindo. O ambiente pode ser hostil, mas a natureza sabe recompensar os esforços dos expedicionários com paisagens de tirar o fôlego, fauna exuberante e, quem sabe, com o avistamento de um animal selvagem. Mas é só para observar, fotografar, analisar ou filmar. Não pode capturar.

Todos os módulos desenvolvidos fazem parte da rotina de trabalho do documentarista de natureza, Fernando Lara, que possui 17 anos de experiência e expedições realizadas no Brasil e no Mundo. Fernando Lara é especializado em rastreamento de animais e realiza suas atividades quase sempre sem captura, interferindo minimamente no ambiente. Entre os trabalhos estão o registro de um encontro a menos de 4 metros de distância de uma onça-pintada na Amazônia Brasileira, a Expedição Rotas Verdes Brasil em que percorreu mais de 21 mil km de motocicleta para registrar 30 unidades de conservação de 20 estados brasileiros em 8 meses de trabalho ininterruptos (assista matéria Globo), e uma incursão solitária de mais de 40 dias sem ver outro ser humano em meio a Amazônia Boliviana.

E é com o experiente explorador Fernando Lara que o Valor Atemporal conversou. A entrevista você lê agora.

Valor Atemporal – Qual é o perfil de quem encara esse tipo de aventura? É um treinamento difícil?

Fernando Lara – São pessoas com determinação, vontade de aprender e acreditar no processo. Mas o treinamento é difícil sim, é complexo, mas traz um forte preparo técnico para ambientes hostis. O caminho até a formação de um aluno que passa pelo meu treinamento é fortemente desafiador. Se o aluno não desistir e chegar ao final do processo, ele receberá uma certificação e estará apto a gerenciar grandes grupos em atividades de selva com o comportamento padrão de segurança correto. Isso inclui habilidades de navegação, produção de fogo, resgate, travessia de áreas alagadas, entre outros.

– As dinâmicas são iguais para todos os cursos? Quantas pessoas vocês já levaram para viver essa experiência?

Fernando Lara e o filhote de onça-parda resgatado. (Foto: Guilherme Guadalupe)

– Já formamos centenas de pessoas ao longo destes cinco anos em ambientes como, Pantanal, Amazônia, Mata Atlântica, Deserto do Jalapão e até mesmo em países da América do Sul. Um curso nunca é igual ao outro, pois minhas aulas seguem a dinâmica que o ambiente me oferece. Por exemplo, durante um treinamento para monitores tive que resgatar um filhote de onça-parda cuja mãe havia sido morta por caçadores e que mudou toda a minha logística na Amazônia; na minha turma de janeiro desse ano no Pantanal do Mato Grosso do Sul, uma onça-pintada foi avistada no meio do acampamento, provando que os ambientes as quais os alunos são expostos são realmente selvagens.

– Dê uma dica de comportamento seguro diante de animais selvagens?

Perneira contra picada de cobras é essencial nas expedições. (Foto: Ilustração)

– Ao contrário do que muitas pessoas pensam, a maior parte dos acidentes que acontecem em ambientes naturais estão ligados ao mau comportamento do homem. É você que tem que se adaptar ao ambiente, não o contrário. Em geral, a fauna brasileira não tem o ser humano como presa em potencial. Por isso, quando há um acidente com grandes felinos, o fato está muito mais ligado a um instinto de defesa e não a de predação propriamente dita. É fácil perceber que ao andarmos por uma floresta, os animais tendem a fugir da nossa presença.

A maioria dos acidentes pode ser evitada com procedimentos de segurança. Usar perneira contra picada de cobras é um exemplo. Ela deve ser usada mesmo se você for a uma cachoeira. Um desatento pode encontrar uma serpente na trilha e ela, instintivamente, atacar na altura da canela. Com esse equipamento de proteção a picada não atinge a pele.

Perneira protegendo contra ataque de cobras na altura da canela (Foto: Ilustração)

Silêncio ao andar pela floresta é fundamental. Em silêncio é mais fácil escutar um enxame de abelhas ou marimbondos. O ataque causado esses insetos é uma das causas que aumenta as estatísticas todos os anos de acidentes em trabalhos em campo. Isso é muito sério! Pessoas e animais morrem por isso.

Também ensino no curso o procedimento de segurança que deve ser adotado ao encontro de uma onça-pintada e de porcos selvagens, por exemplo. São muitas a situações em que tenho experiência real. Um fotógrafo ou cinegrafista, por exemplo, precisa ter um grande controle emocional pra não perder o momento, pois a cena é única. Então, como controlar as emoções, a ansiedade e o medo pra ter o registro perfeito desse animal? Isso é ensinado no treinamento.

– Uma dica para quem for acampar? Qual é o item mais importante?

Treinamento inclui produção de fogo. (Foto: Ilustração/SteenJepsen/Pixabay)

– PLANEJAMENTO é o mais importante. Não tente levar o conforto da sua casa para o mato. Você vai levar um monte de coisas desnecessárias e perder muito tempo tendo que cuidar de todas elas. Faça um processo de desapego e leve somente o essencial. Em uma atividade de campo, menos é mais.

Determine quantos dias serão necessários pra atividade que você deseja fazer e a partir dele determine a quantidade de comida. Use ingredientes simples como arroz, proteína de soja ou carne desidratada, latas de milho e uma boa rapadura. Esses ingredientes irão saciar sua fome, dão energia, são fáceis de preparar e não vão alterar sua digestão ou ritmo intestinal. Prisão de ventre ou diarreia podem desencadear grandes problemas. No mais, nunca ande sozinho e contrate um guia ou mateiro se você não conhece a área.

– Como as expedições entraram em sua vida, Fernando?

Eu me considero um NERD DO MATO. Mas, ao contrário dos CDF’s convencionais, eu busco meu conhecimento no campo, convivendo com as pessoas que trabalham diretamente com isso. Quando eu comecei como documentarista de natureza há 17 anos, eram pouquíssimas as referências. Comecei a fotografar com película e a internet era quase inexistente.

Minha primeira referência foi Jack Cousteau e mais tarde Araquém Alcantara. Mas, como eu não tinha acesso direto a eles busquei conhecimento no mato, com a Polícia de Selva do Parque Estadual do Rio Doce, com mateiros, caçadores, ribeirinhos. Fui buscar neles tudo aquilo que não é comentado nas salas das faculdades, nem nas pesquisas científicas. Infelizmente muitas dessas pessoas estão morrendo e se perde uma enciclopédia de conhecimento.

– Quando acontece a próxima expedição?

Serão sete dias na mata, de 11 a 17 de julho. Sairemos de Poconé (MT). Há ônibus diários saindo de Cuiabá. Nossa equipe está apta para informar sobre a melhor forma de chegar ao local.


Serviço

PANTANAL do Mato Grosso – Curso de Documentação e Comportamento em Selva (Rotas Verdes Brasil). https://www.rotasverdesbrasil.com.br/ Informações sobre valores e inscrições: contato@rotasverdesbrasil.com.br | Edlayne: (31)98875-5041 (Whatsapp) | Danielle: (31)98819-9720 (Whatsapp) | Júlia: (62) 99801-1993 (Whatsapp)

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