Antropóloga relata drama e impactos sofridos pelos povos indígenas do Xingu afetados pela Usina de Belo Monte

A antropóloga Thais Mantovanelli vem realizando pesquisas sobre os impactos socioambientais e efeitos emocionais, culturais causados pela Usina Hidrelétrica de Belo Monte no Rio Xingu. Durante palestra realizada no Rio de Janeiro, ela deu detalhes sobre a situação dos povos indígenas que moram na região que compreende o território onde foi construída a barragem de Belo Monte. O evento aconteceu no último dia 07 de fevereiro, dentro do projeto Artsonica – Residência Artística.

A experiência de pesquisa de campo junto aos povos indígenas Juruna permitiu que a antropóloga vivenciasse de perto o que acontece naquela região, onde ela vem desenvolvido pesquisas desde 2011. “Quando falamos sobre a relação entre o Rio Xingu e a Usina Hidrelétrica de Belo Monte não estamos apenas tratando de aspectos ambientais, políticos e econômicos. São histórias de vidas, modificações, sofrimentos, resistência e luta de pessoas, fauna e flora”, afirma Thais Mantovanelli.

Após ter contato com a obra “Aliendígena 2042” – vestimenta technoxamânica criada pela atriz Gabriela Carneiro Cunha, que visa aproximar o público da vida em torno do Rio Xingu – Thais Mantovanelli observou que a mobilização em torno das questões ‘Xingu-Belo Monte’ podem ir além de escritos, artigos, gráficos e debates. A obra multimídia ficará em exposição aberta ao público no Centro Cultural Oi Futuro – Flamengo a partir do segundo semestre deste ano e vai conectar o público aos sons, imagens e sensações de quem reside no Xingu.

Diante disso, a antropóloga Thais Mantovanelli leu um documento que traz o registro da fala de indígenas feito durante um encontro com a equipe técnica de Belo Monte em 2017. No material apresentado pela antropóloga o índio nomeia o ano de 2016 como sendo “O ano do fim do mundo para a Volta Grande do Xingu”.

“Os peixes estão com gosto de lama. Vocês dizem que não é impacto de Belo Monte. E o que é então se isso? Se não é impacto eu não sei o que pode ser essa palavra. Para nós, isso é muito sério! Estamos com medo e tristes com isso e muito preocupados. Faz tempo que estou falando, mas não estamos sendo ouvidos. Por que vocês não querem ouvir nossos povos? Por que vocês não se importam com as vidas de nossas crianças? Com o fim do inverno, do alagamento da região da Volta Grande por causa da barragem, os saraus já estão morrendo e vão secar até morrer. Os peixes que na cheia se alimentavam dessas frutas vão ficar se alimento e vão morrer. Com o barramento do Xingu, em 2015, 17 toneladas de peixes da espécie Curimatá morreram, grande parte desses peixes estava ovada. Imaginem quantos peixes deixaram de nascer com essa mortandade. Nós, povos indígenas, que sempre vivemos no rio Xingu e estamos sofrendo e assim como os peixes Curimatá.  Nós, povos Juruna, somos como os peixes, dependemos das cheias do rio para nossa sobrevivência. Todas essas vidas e as nossas vidas estão em risco. Todos nós estamos ameaçados”, disse o indígena em questionamento aos dados oficiais apresentados em defesa do que estavam vendo na região”, Trechos extraídos de falas de Mucuca Xiqrin e Jailson Juruna.

Entenda o caso

Silêncio que mata X União que traz vida

Segundo Thais Mantovanelli, as questões envolvendo a hidrelétrica, amplamente faladas anteriormente, agora estão silenciadas. “Os povos lutam contra a invisibilidade e a gente não pode abandonar essas questões, principalmente porque aquilo que está acontecendo lá neste momento é um atentado contra a vida humana, a fauna e a flora. Quem está lá resiste contra a destruição e que agora usam os gráficos que eles mesmo produzem como arma de guerra. São pessoas que tentam expressar suas palavras mostrando a mortandade que está assolando aquela região”, explica.

Thais Mantovanelli disse ao final de sua participação no PapoSonica realizado pelo Artsonica – Residência Artística que neste ano serão realizados encontros com um grupo de trabalho formado por pesquisadores independente de diversas áreas, vindos de universidades públicas, com pessoas Jurunas que tocam esse monitoramento independente do que vem acontecendo em torno da Usina Hidrelétrica de Belo Monte. O objetivo é desenvolver estratégias e propostas para revisão do Hidrograma de Consenso.

“Esse ano de 2019 é um ano de luta pela vida na região da Volta Grande do Xingu (PA) porque é o ano da suposta inauguração do chamado Hidrograma de Consenso, que propõe – ou impõe – controlar o fluxo do rio após o barramento pela hidrelétrica de Belo Monte colocando em risco a sociobiodiversidade local. É preciso haver uma mobilização contra algo tão cruel. Projetos como Belo Monte podem ser casos como os de Brumadinho e Mariana no futuro. O massacre de Brumadinho traz impactos catastróficos para a vida não só de quem mora na região, mas para todo o país”, finalizou a antropóloga.

 

O ArtSonica – Residência Artística é um projeto idealizado e dirigido pela Zucca Produções e tem patrocínio da Oi, através da Lei Federal de Incentivo à Cultura (Lei Rouanet), e apoio do Oi Futuro e do LabSonica. “Este projeto se propõe a apoiar pesquisas e trabalhos de investigações artísticas que estão começando. Existe pouco fomento à pesquisa, e muito apoio ao produto final – teatro, livros, cinema. Nosso objetivo é dar apoio a quem está desenvolvendo pesquisas em andamento e levar ao público conhecimento de relevância sobre assuntos que podem ter o audiovisual com aliado”, destacou Julio Zucca, diretor da Zucca Produções, empresa responsável pela direção geral do ArtSonica.

Assista a palestra completa.

Sobre Thais Mantovanelli  

A antropóloga Thais Mantovanelli é parceira e convidada do projeto de arte “Aliendígena 2042” e da residência ArtSonica. Doutora pelo Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social, com a tese chamada “Os Xikrin do Bacajá e a Usina Hidrelétrica de Belo Monte: uma crítica indígena à política dos brancos”, sob orientação de Clarice Cohn e com financiamento de pesquisa pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES). Atualmente realiza pesquisa de pós-doutorado, intitulada “Narrativas de impacto: os Mẽbengôkre-Xikrin da Terra Indígena Trincheira-Bacajá e os Juruna Yudjá da Volta Grande do Xingu contra os efeitos da usina hidrelétrica de Belo Monte”, pelo Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da Universidade Federal de São Carlos. Desde 2017 atua profissionalmente e desenvolve pesquisa em parceria com o ISA – Instituto Sócio ambiental de Altamira – com questões relacionadas aos impactos sócio ambientais provocados pela construção e instalação da Barragem de Belo Monte, especialmente aqueles relacionados aos povos Mebengokre- Xikrin e Juruna (Yudjá) da Volta Grande do Xingu.

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