Andrea Murgel transforma a dor da perda em projeto para ajudar mães de todo o Brasil

É inegável a força de muitas mulheres para lutar cada vez mais por seus direitos. São muitos os desafios impostos pela sociedade e pela vida, mas apenas um sentimento é capaz de dilacerar de forma irreparável o sentimento de uma mulher: a dor de perder um filho. Este é o caso da empresária carioca Andrea Murgel, que transformou a dor do luto pela morte do seu filho em solidariedade.

Eduardo Murgel de Castro faleceu em um acidente de banana-boat, em Angra dos Reis, mudando totalmente a vida da Andrea dali para frente, no início de 2013. Para ajudar outras mães que passam por este triste momento, Andrea lançou em 2014 o livro A Mariposa Azul, relatando os primeiros 365 dias sem o seu filho, utilizando como base seus textos publicados em seu blog maesvamosconversar.wordpress.com. Em 2015, Andrea criou o projeto SOS Mãezinhas, para trocar relatos, experiências e mensagens de conforto e superação com outras mães que passam pela mesma situação que ela. Infelizmente, são poucos os trabalhos similares voltados para mães que passam por esta situação no Brasil.

Andrea Murgel_A mariposa azul_Foto reprodução facebookValor Atemporal – Nesta semana você publicou em no blog seu depoimento dizendo que a dor não passa. Como essa dificuldade te empurra a ajudar outras mães em situação semelhante?

Andrea Murgel – Costumo dizer que, após o luto, temos um coração de cristal. Este coração eventualmente se quebra com a dor da saudade e nós temos de aprender a aceitar que somos assim. Quanto à minha força, ela é movida a compaixão e ao fato de posso fazer a diferença em suas vidas e cumprir minha missão de acolhimento e troca.

Dos primeiros 365 dias sem o seu filho qual foi o pior momento?

Existem muitos piores momentos, eu não teria, não conseguiria citar um só…

Pelo projeto SOS Mãezinhas você trocar relatos, experiências e mensagens de conforto. Qual situação de superação mais chamou a sua atenção?

Nós não superamos propriamente dito, nós aprendemos a renascer, e não há nenhum para destacar, somos todas iguais, encontramos caminhos do bem para sobreviver.

mariposaazulcapaSão poucos os trabalhos similares voltados para mães que passam por esta situação no Brasil. Acredita que para as mães que sofrem perdas assim o silêncio esteja sendo usado freio ao sentimento de dor?

Sim, nosso país é muito grande e a cada segundo morre um filho ou uma filha de alguém…Este alguém essa mãe, grita desesperadamente por ajuda, e a maior dor do mundo é essa dor solitária, muitas ficam caladas para não se tornarem páreas na sociedade. É preciso ajudar!

Então, falar sobre a perda é o melhor remédio?

Sim, não só falar, mas vivenciar o completo processo de luto.

Como diz a crença popular, não é natural que filhos morram antes dos pais. Como manter a serenidade e o equilíbrio diante de uma situação tão dolorosa?

Acredito que temos um apoio divino, uma força de guerreiras.

As perdas normalmente acontecem das mesmas formas (acidentes, doenças). Isso aproxima vocês no sentido de “serem iguais”. Quais dicas de auto cura você daria para as mães que estão lendo esta entrevista?

Existem todos os tipos de morte, mas a dor é a mesma, precisamos do apoio mútuo, da fé e de assistência mas acima de tudo nós é que temos de fazer um escolha em viver, sabendo que o processo é longo mas sobrevivemos.

Em seus posts vocês demonstra ser uma pessoa bastante ligada à espiritualidade. Ter esse elo com o astral superior te ajudou nessa nova fase de sua vida?

Sim ajudou muito! Obter perguntas e respostas foi muito significante e poder apelar para as forças de amor espiritual que nos cercam, é fundamental. Sempre acreditei que a vida é infinita, então nossos filhos estão vivos, porém em nova dimensão.

Andrea Murgel_A mariposa azul_Foto reprodução facebook2Muitas mães relatam que começaram a escrever sobre as partidas de seus filhos, influenciadas por você. Como esse processo de autoterapia favorece a compreensão daquilo que parece impossível de aceitar?

Através da dor em comum, percebemos o tamanho de nosso amor e união e ver que alguém teve coragem de se expor e falar numa linha mais profunda ajuda a abrir as portas para as outras mães que já conquistaram essa força de se expressar. Falar é preciso!

O luto muitas vezes impede a mãe de voltar ao convívio social. Algumas não aceitam a ideia de diversão e param a vida. Qual é a maneira ideal de voltar a socializar?

Não tem uma maneira específica, mas o que sempre digo é que façamos o que quisermos, sem sermos forçadas antes do tempo. Sorrir e dançar faz parte da vida também, e tudo isso acontece normalmente como até uma homenagem aos nossos filhos. Ficamos um pouco mais seletivas, isso é certo.

E por falar em parar a vida, o apego à matéria é um dos principais fatores de sofrimento. Algumas mães não desfazem os quartos, não mudam o ambiente, não doam objetos. Como convencê-las da necessidade de seguir em frente?

Esse é um assunto bem delicado, cada uma tem seu tempo e é fundamental que esse desapego aconteça para o bem de todos nós e eles. Estão vivos dentro de nós e não estão mais presos a matéria. Acho saudável guardar um peça ou duas mas quando liberamos seus quartos é como aceitássemos a vida caminhando junto com eles.

A novela “Totalmente Demais” mostrou o sofrimento de Lili, personagem de Vivianne Pasmanter, que perdeu a filha “duas vezes”. Primeiro por uma armação da própria garota simulando a morte, depois, dessa vez, morrendo “de verdade” devido ao envolvimento em ações criminosas. Uma verdadeira desilusão por conhecer o perfil sociopata da filha. Então pergunto: Nas matérias jornalísticas vemos muitas mães pessoas envolvidas no crime chorando e jurando que o filho era um santo. Essa negação como forma de defesa é um erro? Como superar essa perda que muitas vezes vem aliada a vergonha social?

Boa pergunta. Nesses casos cada um tem um particular a ser tratado, mas acredito que o certo não dizer que eram santos, apenas não dizer e sofrer seu luto como necessitar.

Sua dor esta sendo revertida em amor. Você está formando uma legião de mães escritoras que se ajudam. O que isso tem representado na sua vida?

Tudo, minha sobrevivência, minha alegria de cumprir a missão de ser a mãe do Dudu na terra e realizar a missão que escolhi após sua partida.

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